Depois de Dallas: continuar a luta por justiça!

Depois de Dallas: continuar a luta por justiça!

my-portfolio

Os negros norte-americanos estão sendo atacados. Há um óbvio padrão de violência policial contra a comunidade negra, incluindo assassinatos extrajudic...

Nota do PSTU em defesa da democracia nos debates
Operário, negro, feminino e LGBT: assim foi o ato dos 22 anos de PSTU
Governador do PT persegue e criminaliza estudantes no Ceará

Os negros norte-americanos estão sendo atacados. Há um óbvio padrão de violência policial contra a comunidade negra, incluindo assassinatos extrajudiciais que não são punidos pelo racista sistema de justiça criminal. O movimento “Black Lives Matter” (“Vidas negras importam”) está lutando e nega-se a ceder à pressão dos policiais e dos políticos.

Por: John Leslie

No dia 07 de julho, um militar experiente e fortemente armado, Micah Johnson, de 25 anos, atirou em 12 oficiais de polícia (dos quais 5 morreram) durante uma manifestação pacífica do Black Lives Matter (BLM), em Dallas, no Texas. A mídia divulgou que havia vários atiradores, mas isso é falso. Os disparos ocorreram durante uma mobilização por justiça para Alton Sterling e Philandro Castilla. Também houve uma reação dos racistas sindicatos de polícia, porta-vozes da direita e políticos – tanto os liberais quanto os conservadores.

Depois dos disparos, Johnson trocou tiros com a polícia e se refugiou na garagem de um estacionamento. A polícia afirma que Johnson teria colocado explosivos na estrutura com o intuito de “matar os policiais brancos”.  A polícia utilizou uma bomba, colocada em um robô, para explodir Johnson, matando-o. Sem nenhum julgamento, nenhum jurado, sem o devido processo.

O ativista Mark Hughes, que, naquela noite, carregava uma arma descarregada, ficou detido durante horas, acusado de estar envolvido no tiroteio. Hughes foi liberado mais tarde, depois de ter sido interrogado durante horas pela polícia. Ele e seu irmão, Corey Hughes, receberam “centenas” de ameaças de morte desde o incidente. Hughes queria exercer seus direitos, de acordo com Segunda Emenda, da mesma maneira que fizeram os partidários de Trump em Dallas semanas atrás. O porte de armas de fogo, desde que estejam à mostra, é legal no Texas.

A população negra enfrenta uma situação de homicídios policiais extrajudiciais, a violência, o encarceramento em massa, o desemprego massivo, a pobreza, o trabalho precário e um duro ataque às conquistas dos movimentos pelos Direitos Civis.

Depois do incidente, o conservador locutor de rádio e político frustrado, Joe Walsh, publicou no Twitter: “Isto é a guerra. Tenha cuidado, Obama. Tenham cuidado, punks do Black Lives Matter. Os verdadeiros americanos virão atrás de vocês”. O chefe dos sargentos da polícia de Nova York classificou os assassinatos como o renascimento do “Exército de Liberação Negra”[1].

Bill de Blasio, o prefeito democrata da cidade de Nova York, pediu aos manifestantes do BLM que “mostrassem certa decência” depois da matança. Do mesmo modo, de Blasio buscou desmobilizar o movimento logo após dois policiais serem assassinados em 2014, depois que sistema judicial se mostrou incapaz de acusar os policiais que mataram Eric Garner.

O diretor da Associação Nacional de Organizações de Polícia, William Johnson, disse que existe “uma guerra contra os policiais”, e que a administração de Obama é a culpada.

O congressista John Lewis, anteriormente um ícone dos direitos civis, desmoralizou-se ao publicar no Twitter: “Fui golpeado até sangrar pelos agentes da polícia, mas nunca os odiei. Disse a eles: ‘Obrigado por vossos serviços’”.

Obama se apressou em condenar a violência contra os policiais e fez de sua intervenção um sermão sobre a necessidade de controlar as armas. Clinton disse que houve um duelo com os policiais que estavam fazendo seu “sagrado dever”.

Demonizar e desmobilizar um movimento em ascensão

A classe dominante e seus títeres políticos estão desesperados por demonizar e desmobilizar o movimento BLM. Eles usam todos os meios, seja a repressão ou a cooptação, para deslegitimar a luta por justiça. Na noite da última sexta-feira, a polícia anti-distúrbios de Phoenix lançou gases contra os manifestantes do BLM, que bloquearam uma estrada. Na noite de sábado, em Minneapolis, a polícia anti-distúrbios utilizou bombas de fumaça, gás lacrimogênio e gás de pimenta contra os manifestantes que bloquearam a estrada interestadual 94. Os policiais detiveram 74 pessoas que participavam de uma manifestação organizada pelo BLM em Rochester, Nova York. Outras 30 pessoas foram detidas durante um protesto em Baton Rouge, Luisiana. Entre os detidos da cidade de Baton Rouge, estavam o ativista do BLM DeRay McKesson e a candidata socialista à presidência, Gloria La Riva. Até agora, o alarmismo e a repressão contra o movimento não estão funcionando e as manifestações continuam nas cidades dos EUA. Todas as acusações contra os manifestantes devem ser retiradas imediatamente.

Violência, não-violência e ação de massas

Os socialistas não são pacifistas. Apoiamos o direito à autodefesa e não acreditamos que esse sistema penal possa ser derrubado por meio de medidas parlamentares. Não há um signo de igualdade entre a violência dos opressores e a dos oprimidos. Dito isso, não apoiamos o terrorismo individual, que alguns chamam de “propaganda dos fatos”. O êxito dos movimentos se dá pela capacidade de organizar e mobilizar as massas. Como disse o revolucionário russo Lenin, “a política começa onde estão as massas; não onde há milhares, mas onde há milhões – é aí onde começa a política séria”. As ações dos indivíduos ou de pequenos grupos não podem substituir as ações das massas.

A polícia mata uma pessoa negra desarmada a cada 28 horas. O sistema de injustiça criminal raras vezes pune os policiais assassinos. Os policiais desaparecem após uma investigação superficial. A população negra enfrenta uma situação de homicídios provocados por paramilitares, a violência, a prisão em massa, o desemprego massivo, a pobreza, o trabalho precário, e um duro ataque às conquistas do movimento por Direitos Civis. Neste contexto, lutar é inevitável. Se ocorre uma reação, é claramente um caso daqueles em que as “galinhas voltam ao ninho”, como disse Malcolm X após o assassinato de John F. Kennedy.

O exército dos movimentos está baseado em sua capacidade para organizar e mobilizar as massas.

O mito “daltônico” dos EUA com Obama é uma mentira, que está exposta diante de todos. O movimento contra a repressão policial tem tido, na maioria das vezes, um caráter não violento. Essas rebeliões têm ocorrido – em Ferguson, Baltimore e em outros lugares – como uma resposta a décadas de violência estatal e de opressão sistemática.

As forças policiais estão cada vez mais militarizadas, de acordo com o Programa 1033 do Departamento de Defesa, que coloca equipes militares sob o comando dos policiais locais. A polícia atua como uma força de ocupação nas comunidades oprimidas. Os objetivos de nosso movimento devem estar além da oposição à polícia militarizada, assumindo um nítido chamado à abolição da polícia e das prisões.

O movimento não deve ceder à pressão de frear as mobilizações pela vida dos negros e por seus direitos democráticos. Temos uma oportunidade de ampliar o movimento. Para isso é preciso levar a discussão sobre a polícia para os sindicatos, e a demanda a ser levantada é “fora policiais dos nossos sindicatos!”.

A construção de um movimento claramente independente dos Partido Democrata, e em base a uma estratégia de ação permanente diante das massas, deve aprofundar a luta pelo fim da violência policial, da guerra racista contra as drogas e do complexo industrial das prisões. Os socialistas querem construir um mundo onde a polícia e seus presídios não sejam necessários. A abolição dessas funções repressivas do Estado deve se converter em um objetivo do movimento.

O artigo original foi publicado em: http://leftvoice.org/After-Dallas-Continue-the-Struggle-for-Justice

Nota:

[1] O Black Liberation Army (BLA, Exército de Liberação Negra) foi uma organização revolucionária negra que tinha como orientação a luta armada, que foi destruída pela polícia nos anos 1970 e 80.

Tradução: Ana Pagu