Vida invisível em Fortaleza

Vida invisível em Fortaleza

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(Bruno Silva, do PSTU Fortaleza) Trabalhei durante um ano no local onde, na noite da última sexta-feira, 6/11, jogaram um coquetel molotov em 30 morad...

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(Bruno Silva, do PSTU Fortaleza)molotov

Trabalhei durante um ano no local onde, na noite da última sexta-feira, 6/11, jogaram um coquetel molotov em 30 moradores de rua. Quando vi a notícia lembrei de tudo que já tinha na cabeça sobre essa questão e quero aqui, neste texto, explicar algumas informações incompletas sobre o assunto.

Nas proximidades de onde eu trabalhava funciona uma sede do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social). Quando comecei a trabalhar na empresa, a situação começava a se desenvolver, a prefeitura dar comida, ma
s não abrigo, dar o espaço, mas não a estrutura suficiente para aquelas pessoas poderem ter uma vida digna. Então, para que serve?

Os moradores de rua

Segundo dados da Secretaria de Trabalho, Desenvolvimento Social e Combate à Fome atualmente, a capital cearense tem 4,5 mil moradores de ruas.
Desse total, apenas 70 são atendidos pelo Centro.¹ tive a oportunidade de conversar pessoalmente com alguns moradores daquele local. Alguns dependentes químicos, alguns catadores e, é claro, uma coisa em comum: a falta de um local digno para viver e uma forma de voltar para o convívio social. Um dos moradores me explicou mais ou menos como funcionava.

Disse que eles podem se alimentar no CRAS, mas, de resto, era rua. E por que então ficam ali? Por não ter tantos centros como esses, alguns têm medo de perder a hora do almoço ou que acabe a comida, e também, obviamente por ser mais perto e cômodo, ou, nas palavras do próprio morador: “Ir para onde?”. Existem alguns que são catadores, outros são flanelinhas outros são moradores do interior e dependentes químicos, mas o que poderiam fazer uma vez que as clinicas de tratamento são muito caras ou as que são gratuitas são ONG’s que não têm nem como se auto sustentar? Pesquisas feitas em São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, mostram que entre as razões que levaram à rua, a maioria (71,3%) citou um desses três motivos: problemas com álcool e/ou drogas (35,5%), desemprego (29,8%) e desavenças com a família (29,1%). Quanto à renda, 52,6% recebem entre R$ 20,00 e R$ 80,00 semanais, sendo que a maioria da população de rua (70,9%) exerce alguma atividade remunerada, ou seja, é constituída predominantemente por trabalhadores.

A maior parte trabalha informalmente. Apenas 1,9% afirmou possuir vínculo empregatício com carteira assinada. A maioria (88,5%) não recebe nenhum benefício governamental e apenas uma minoria de 15,7% declarou sobreviver por meio da mendicância, a maioria dos entre
vistados declarou possuir uma atividade remunerada: Coleta de materiais recicláveis 27,5%, Atividade de “flanelinha” 14,1%, Construção Civil 6,3%, Limpeza 4,2%, Atividade de Carregador/Estivador 3,1%.²

A cor da exclusão

Ainda de acordo com a mesma pesquisa acima, a maioria dessas pessoas em situação de rua é composta por homens (82%), 39,1% se declaram pardas, 27,9% se declaram negras, e apenas 29,5% se declaram brancas. Isso demonstra que nessa situação predominam os negros, os mais afetados por essa situação.

Estes são os acusados de bandidos, de marginais, não é preciso ir muito longe, o flanelinha, o catador, o mendigo, qual é a cor dessas pessoas? Essas pessoas são ajudadas? Um exemplo básico aquele mendigo que comoveu muitos pela sua “beleza” era branco do olho azul e despertou em todos a pena, os comentários eram “olha mais que homem bonito o que alguém assim está fazendo nessa situação?” E logo o ajudaram, mais e os negros?

Estes são motivos de piadas nas redes sociais, esses são os excluídos os marginais, demonstrando também o verdadeiro caráter dessa sociedade, o racismo e a exclusão. E não é de se impressionar os negros são a minoria nos melhores postos de trabalho, e são a maioria nos mais precarizados, não é difícil ver um negro trabalhando na construção civil, um negro trabalhando como zelador, onde o salário é bem menor do que o trabalho.

Os moradores locais

A área em questão tem muitas casas de classe média, e alguns moradores reclamam que também desde a desativação do Instituto de Identificação, algumas pessoas ficam na calçada dormindo e morando ali. Alguns também ficam na calçada em frente ao CRAS e outros ficam entre um local e outro. A questão é que pessoas em situação de rua não têm o básico para sobreviver: não têm um banheiro, não têm um local para dormir, então fazem suas necessidades pelas calçadas de alguns locais mais isolados, e acabam incomodando alguns dos moradores que ligam para a prefeitura. Como resposta, a política é sempre a mesma. Assistente Social? Investimento no CRAS? Mais estrutura para o CRAS para que os moradores não fiquem nessa situação? Não! Polícia! Do Batalhão de choque à guarda municipal, a palavra de ordem é a repressão e o extermínio. A polícia chega, cumpre seu papel de cães de guarda do estado burguês, expulsam os moradores que, por sua vez, não tendo para onde ir, acabam voltando para o mesmo lugar.

Fruto do Capitalismo

E necessário dizer, antes de tudo, que essa situação de milhões à margem da sociedade é característica do sistema capitalista, onde os ricos e poderosos continuam cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres. Por isso, essa situação só pode ser combatida com o fim do capitalismo e a construção de uma nova sociedade, uma sociedade socialista sem exploração, nem opressão.

Foto do caso publicada no site do Diário do Nordeste

Foto do caso publicada no site do Diário do Nordeste

As administrações ditas de “esquerda” ou progressistas não romperam com o capitalismo. Administram o estado para os ricos e poderosos e excluem milhões. Não tem Bolsa Família que dê jeito! Infelizmente, sem uma luta contra esses governos, a situação só tende a piorar. Com as políticas de ajuste fiscal do governo Dilma, a classe trabalhadora tende a ir cada vez mais para a miséria.

Fortaleza tem a cesta básica mais cara do Nordeste e a média salarial mais baixa do país, e a resposta do governo é de cada vez mais cortes sobre a classe trabalhadora.

É necessário exigir da prefeitura que cumpra o papel de acolher essas pessoas, e dê condições de que elas sejam readaptadas à sociedade com um emprego e uma vida digna, e ofertar tratamento gratuito e de qualidade aos dependentes químicos. Não é possível que em uma cidade com 4,5 mil moradores de rua, apenas 70 tenham alguma assistência.

É mais do que necessário que os trabalhadores e a juventude estejam organizados para lutar contra o ajuste fiscal do governo Dilma, e estejam cada vez mais conscientes que só a luta pode mudar a situação em que vivem.

A luta pela construção de uma nova sociedade torna-se cada vez mais necessária. Uma sociedade sem classe e sem exploração: uma sociedade socialista!

vida invisível


 

1) http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/cidade/online/em-fortaleza-4500-moradores-de-rua-disputam-70-vagas-em-casas-de-acolhimento-todos-os-dias-1.848973

2) http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=72cad9e1f9ae7987

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