Controvérsias em torno da entrevista de Raquel Dias

Controvérsias em torno da entrevista de Raquel Dias

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Fábio José C. de Queiroz A entrevista que a professora, e candidata ao senado pela Frente de Esquerda, Raquel Dias, concedeu na última segunda feira, ...

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Fábio José C. de Queiroz

A entrevista que a professora, e candidata ao senado pela Frente de Esquerda, Raquel Dias, concedeu na última segunda feira, provocou inumeráveis controvérsias. A polêmica começou no próprio colóquio midiático, seguiu com matéria e comentários de um articulista do periódico O Povo, e continuou com a intervenção de pessoas do campo da esquerda.

Projeto adentrar nessa celeuma, mas, antes disso, me vejo na obrigação de efetuar alguns ligeiros comentários, que, de alguma maneira, se ligam a essa discussão. Particularmente, pretendo delinear o lugar do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, ao qual Raquel é vinculada, nesse debate.

O PSTU participa das lutas sindicais e não acha que elas, por si, irão resolver os problemas da classe trabalhadora. Ainda assim, estamos convencidos da importância de realizarmos o trabalho no movimento sindical. Do mesmo modo, participamos das eleições e não achamos que elas irão resolver os problemas fundamentais da classe trabalhadora.

O fato é que não somos uma seita. Somos um partido marxista que entende a importância de se localizar nos processos sociais e políticos nos quais os trabalhadores estejam presentes. Acompanhamos essas experiências, pois achamos que a formação de uma massa crítica, capaz de impulsionar as mudanças profundas, que, decerto, são necessárias, não nasce de um laboratório encantado, mas da prática do dia a dia. À vista disso, por exemplo, estamos participando das eleições 2014, inclusive com candidato à presidência da república.

Nessa perspectiva, nos orgulhamos de nos apresentar como o partido das lutas e do socialismo. Efetivamente, lutamos pela revolução socialista no Brasil e no mundo. Entendemos, no entanto, que esta não é uma obra de poucos, mas de milhões e de milhões de trabalhadores. Não acreditamos que um pequeno agrupamento militante possa substituir as amplas massas trabalhadoras, da cidade e do campo, única força apta a mudar o mundo.

Por isso, o PSTU não se furta de se colar às experiências concretas das massas trabalhadoras, acompanhando-as, com paciência e política.

Nesse quadro, se desenvolveu possante controvérsia à volta de frases – cuidadosamente destacadas – da entrevista concedida por Raquel Dias, a nossa candidata ao senado. Achamos que essa polêmica está vinculada às questões que, há pouco, ressaltamos.

O centro da discussão, num determinado momento, se voltou para o problema da “luta armada”. O periódico O Povo tentou passar ao leitor a ideia de que somos uma seita que defende a luta armada e ponto final. Mais: não haveria sentido, então, de participarmos dos certames eleitorais.

Primeiro: se o bravo articulista, que fez comentários unilaterais acerca da entrevista de Raquel Dias, se desse ao trabalho de estudar o nosso programa, certamente, encontraria na revolução socialista a nossa estratégia e não simplesmente na “luta armada”. A tradição da nossa corrente política se formou na contracorrente da “luta armada”, divorciada das ações multitudinárias de massas, única forma de se transformar radicalmente a sociedade.

Pois é: radicalmente. Isto é: pegar pela raiz, mudar pela raiz. É disso que nos acusam? Pois bem, queremos, sim, mudar as coisas pela raiz. Mudar pelas ações multitudinárias de massas. É nisso que acreditamos: na criatividade, ânimo e pujança das massas trabalhadoras. Não esqueçamos que, quando a classe operária entrou em cena, em fins dos anos 1970, a ditadura começou a titubear e, poucos anos depois, João Figueiredo saiu pelas portas do fundo do planalto. Poder ditatorial que, por sinal, nasceu da luta armada contra o povo, contando com o apoio entusiasmado de veículos de comunicação, que hoje se arvoram a porta-vozes da democracia. Podem se arvorar, mas não conseguirão apagar da história o papel que cumpriram.

Aqui, há questões ideológicas de fundo. O articulista que comenta a entrevista de Raquel se esmera a definir a democracia como o regime das instituições imutáveis. Parafraseando um velho amigo, diria que, para ele, houve história; não há mais. O que havia de ser descoberto, já está descoberto. Que mundo triste este do Sr. articulista! Nada há a ser desvendado ou acrescentado. As revoluções passaram (até as reformas passaram)! Que mundo triste!

E ele quer que nos adaptemos a este mundo triste ou, do contrário, é melhor cairmos fora.

Não há como não se lembrar do Conto da ilha desconhecida, de José Saramago, que conta a história de um homem que desafia a ideia de que tudo já é conhecido e, que, portanto, já não há ilha a ser descoberta. O comentador da entrevista de Raquel Dias confessa ao leitor de que já não há ilha a ser descoberta. E se alguém disser o contrário, deve se retirar da brincadeira de roda da “democracia”.

Veja o caso do senado. No Brasil colônia, evidentemente, essa instituição não existia no “arcabouço legal”. Com o advento da Monarquia, surgiu o senado vitalício. Posteriormente, com a queda do regime monárquico e o triunfo da República, comandado por homens armados, o senador passou a ter mandato de nove anos. Hoje, todos sabem que, desde a Constituição de 1988, o Brasil seguiu com o sistema bicameral, com o mandato senatorial sendo exercido por oito anos, com direito à reeleição.

Em suma, as instituições não são perenes e, ao longo do tempo, são perpassadas por reformas em seu modo de composição. Assim, por que seria absurdo um candidato propor a substituição do sistema bicameral pelo unicameral? Por que não é expresso que nos países nórdicos o sistema é unicameral e que essa realidade se estende a maioria dos países de todos os continentes, exceto as Américas? Por que não é dito que um senador custa, aos cofres públicos, cinco vezes mais do que um deputado federal? Então, por que um candidato ao senado não pode defender essa alteração do sistema político?

Dizer que Raquel poderia fazer isso bem melhor, candidatando-se ao cargo de deputado federal, é simplesmente uma opinião, que, até o momento, não demonstrou ser a tática política mais apropriada. Aliás, cabe aos partidos discutir quais as táticas mais justas para traduzir a sua política e o seu programa. Não há qualquer fundamento que desabone o fato de uma candidatura ao senado aventar a ideia da substituição do sistema bicameral pelo unicameral.

Por fim, a ideia do senado como de equilíbrio. Ela não é nova. Esteve posta nos debates que deram origem à Constituição dos EUA e foi defendida, ardorosamente, pelos escravistas, que, por meio de bancadas no senado, desejavam garantir a continuidade de seus privilégios, notadamente da exploração da população negra submetida ao trabalho servil. Essa questão, afinal, não foi resolvida sequer nos salões luminosos do senado estadunidense, mas, no campo de batalha, no furor da “luta armada”, manifesta na Guerra de Secessão. No caso do Brasil, essa ideia acoberta que esta casa tem sido reduto de oligarcas e não ponto de equilíbrio entre os estados da federação.

O interessante é que os entrevistadores não se enrubescem de levantar antigos clichês, dentre eles o de que o PSTU, nas eleições, é renegado pelos trabalhadores, “esquecendo” que, nos pleitos eleitorais, as decisões, em última análise, são determinadas pelo poder econômico e por regras políticas antidemocráticas (Dilma tem quase trinta vezes mais tempo que Zé Maria na TV). A atitude dos entrevistadores é a de naturalização dos mecanismos de um sistema político em que a igualdade é formal e a desigualdade, real. A solução que eles sugerem é de que o PSTU deveria “abandonar o sistema político”. Quer dizer, só deveria participar deste sistema os que acreditam que não há ilhas desconhecidas. Pior: insinuam de que há arrogância na postura do PSTU de apresentar Raquel Dias como a única candidatura de esquerda ao senado. Ora, quem seria a outra? Raquel é a única candidatura que assume a esquerda como a sua orientação política. Isso não é arrogância; é constatação.

Curioso, no entanto, é que os defensores das “regras democráticas”, os paladinos da democracia, se levantam indignados ante o fato de que a candidata ao senado da Frente de esquerda está afastada do trabalho, para fazer a campanha, e está recebendo salário, como se isso constituísse absurdo ou ilegalidade. Isso está previsto nas normas que os democratas defendem. Defendem? Sim, desde que seja para atacar a esquerda que não se rende.

Decididamente, a esquerda que não se rende – e preconiza um corte de classe – precisa ser desmoralizada. Essa é a intenção dos democratas, que não se furtam de levantar as suas preocupações quanto ao futuro das empresas, ante as teses de confisco por parte do PSTU. É compreensível, principalmente se levarmos em conta que, tanto quanto imprensa, nós estamos lidando com empresas.

O PSTU respeita os pontos de vista divergentes e compartilha das preocupações de aliados honestos que, malgrado as suas apreensões, de certo modo, se recusam a fazer média com a grande mídia e os seus ideólogos. O mais preocupante, contudo, é quando pessoas que se reclamam de esquerda, adotam como pressupostos da sua crítica fundamentos típicos dos ideólogos da ordem capitalista. O debate que decorreu do colóquio com Raquel Dias revelou também esse tipo de conduta política. Essas pessoas se esquecem de que, no capitalismo, o “voto livre”, em regra, é uma utopia retrógrada. O que, em última hipótese, se verifica é a supremacia do poder econômico. O que a esquerda, que não se rende, necessita fomentar, é a formação de uma massa crítica, que aponte para além da ordem do capital, historicamente esgotada e superada. Além disso, a ideia das “vias democráticas” tem sido o caminho natural da negação da revolução social, isto é, o caminho da social-democracia.

O PSTU se orgulha de ter como horizonte político a revolução social, que, insistimos, não é o resultado da iniciativa de pequenos agrupamentos, ainda que armados, mas das amplas massas da população exploradas pelo capital. Lutamos pela mais ampla liberdade, que, de feito, não pode ser fruto das experiências limitadas às divisas desse sistema de exploração. Quanto às “vias democráticas”, não há nada mais democrático de que as massas trabalhadoras tomem o seu destino nas próprias mãos. O resto se reduz ao que o marxismo popularizou como cretinismo parlamentar.

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