Violência policial e tristes coincidências…

Violência policial e tristes coincidências…

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George Bezerra A morte de D.G, dançarino do programa Esquenta da Globo, comoveu o país. Um jovem de 25 anos que, coincidentemente, era negro. Falo em ...

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George Bezerra

A morte de D.G, dançarino do programa Esquenta da Globo, comoveu o país. Um jovem de 25 anos que, coincidentemente, era negro.

Falo em coincidência, porque o Amarildo (aquele que até hoje não encontraram o corpo) era negro. E também aquela mulher que foi comprar pão, baleada pela P.M, que de tão gentil e prestativa com a comunidade levou-a no camburão (dizem que para o hospital), mas deixou o corpo cair. Lembram dela? Cláudia acho que era seu nome. Pois é…também era negra.

O mundo é feito de tantas coincidências que, durante o protesto contra a morte do dançarino Douglas, balearam um cara na cabeça. Morreu. Ele também era negro. E uma criança de 12 anos, já com as mãos para cima, também foi baleada. Adivinhem a cor dela? Quem pensou negra, acertou.

O corpo de Douglas foi encontrado numa escola-creche na comunidade Pavão-Pavãozinho. Douglas tinha ido à comunidade para visitar sua filha. Marcas de chute, escoriações, traumas, perfurações. Tentaram esconder o corpo, mudaram a cena do crime, mas o plano deu errado.

A Polícia civil disse que o rapaz foi vitimado por uma queda. E que queda, hein?! Ou melhor, que versão absurda essa da polícia. Conto para criança dormir perde feio. A população da comunidade voltou-se contra a UPP. Os policiais da Unidade da Polícia Pacificadora são os principais suspeitos. E eis mais uma coincidência. Uma vez mais as UPP’s na jogada.

Tem gente que se retorce quando falamos em racismo e extermínio das comunidades negras. Acha que esticamos a baladeira. Ou então chegam ao cúmulo de dizer: “Mas, fazer o que? Se é lá que estão os bandidos!” A velha ideologia de que a favela é um mundo habitado, em sua maioria, pelos piores tipos que a espécie humana produziu.

Quem dera se todos esses fatos não passassem de uma infeliz coincidência. O diagnóstico elaborado pelo Mapa da Violência de 2013 aponta para uma conclusão oposta. No Brasil, os homicídios obedecem a um padrão bem definido.

De acordo com o estudo, “os homicídios são hoje a principal causa de morte de jovens de 15 a 24 anos no Brasil e atingem especialmente jovens negros do sexo masculino, moradores das periferias e áreas metropolitanas dos centros urbanos. Dados do Ministério da Saúde mostram que mais da metade dos 52.198 mortos por homicídios em 2011 no Brasil eram jovens (27.471, equivalente a 52,63%), dos quais 71,44% negros (pretos e pardos) e 93,03% do sexo masculino.”

Entre os anos de 2002 e 2010, o número de homicídios brancos caiu 25,2%, enquanto o de negros aumentou 29,8%. Em números absolutos, o total de vítimas negras subiu de 26,9 mil, em 2002, para 34,9 mil, em 2010, ante uma redução de 18,8 mil para 14 mil nos assassinatos de brancos no mesmo período.

Neste sentido, não é exagero falar em extermínio das comunidades pobres e negras das periferias desse país. O extermínio vem das disputas causadas pelo tráfico? Sim. O negócio do tráfico, a luta por territórios e pelo poder local levam jovens de distintas facções a se digladiarem.

Mas, o extermínio também vem da violência policial. Com um diferencial. A violência da polícia é mais abrangente, recai sobre todos da comunidade. Qualquer cidadão dessas comunidades é um potencial suspeito. E, como a nossa polícia tem como única e exclusiva função a repressão, faz desse objetivo uma “desculpa” para sequestrar, torturar, esculachar, estuprar e um largo etc.

Há um elemento a mais. O monopólio das armas e o fato da polícia ser militar, e não civil, dão a P.M um poder fora dos limites/controle de qualquer setor da sociedade. Não há nenhuma espécie de controle social sobre a P.M.

Soma-se a isso o treinamento racista que recebem com a degeneração moral em curso nos diversos batalhões e companhias (o caso de uma UPP que era utilizada como um prostíbulo mostra o nível dessa degradação) e dá nisso que estamos vendo. Uma brutal violência policial, encoberta pelo pretexto da Guerra Contra o Tráfico, com endereço certo: jovens comunidades pobres e negras.

É preciso colocar um fim nessa realidade. O tráfico não acaba desmontando uma boca (pequena, média ou grande) no morro ou na favela. O tráfico é um negócio internacional. A legalização das drogas é para desmontar essa estrutura que alicia jovens em troca de dinheiro fácil nas periferias, onde não há escola de qualidade, posto de saúde, hospital, creches, enfim, perspectiva de uma vida melhor.

Ele é um câncer que se instala num tecido social que já está enfermo e, de repente, espalha-se como um daqueles cânceres mais agressivos. Então, é fundamental legalizar as drogas, acabar com a festa de políticos e empresários envolvidos nesse negócio capitalista. Como se daria o processo de legalização, produção, circulação e cosumo de drogas? Tudo isso poderia ser discutido. Mas, comecemos a colocar a legalização como uma possibilidade séria e não uma coisa de outro mundo.

A polícia militar tem que ser extinta, desmilitarizada. É uma instituição herdada dos tempos de repressão. Uma nova polícia civil unificada, que não esteja acima do bem e do mal, deve ser criada. Seus membros podem ser selecionados entre aquelas pessoas com moral quase inquestionável, os quais receberão instrução/treinamento técnico, físico, científico e investigativo para poderem atuar.

Os policiais devem ter direito à sindicalização e de greve garantidos, assim como condições dignas de trabalho. Os policiais devem ter o poder para destituir (derrubar) seus superiores quando necessário. Não pode ser que continue do jeito que é hoje, em que comandantes corruptos, opressores, que humilham cabos e soldados, não caiam, porque na hierarquia militar não se permite isso.

Da mesma forma, conselhos comunitários por bairro poderiam ser formados. Neles, estariam presentes donas de casa, estudantes, professores costureiras, comerciantes e pedreiros. Enfim, representantes da comunidade. A função desses conselhos seria a de trabalhar em conjunto com a polícia para resolver os problemas do cotidiano (furtos, assassinatos, brigas, etc.).

Além disso, fiscalizariam o trabalho da polícia, enviaria relatórios mensais das atividades policiais no bairro. E, diante de casos de desvio de conduta, o conselho convocaria assembleias para, se necessário, destituir policiais com graves faltas morais e promover novos. Os conselhos seriam uma espécie de instrumentos para aproximar o povo da nova polícia e, ao mesmo tempo, exerceria um controle da população sobre a instituição.